Ouvi-a bater à porta levemente. Sobressaltada, agarrei-me aos lençóis, com o medo a percorrer todo o meu corpo como choques eléctricos.
O bater continuou, semelhante a um roçar do vento nas folhas. Devagar, pé ante pé, como nos filmes de terror, dirigi-me à porta.
Quando a abri, exclamei de imediato:
- Dona Loucura!
Ela sorriu-me, a Loucura. Amavelmente, retorquiu:
- Não me chames Dona, minha querida. Somos velhas conhecidas, esses tratamentos já não são necessários.
Olhei-a confusa. Não me lembrava de ter visto muitas vezes a Loucura, muito menos dela me visitar a horas tão tardias.
Convidei-a a sentar-se. Velhas conhecidas ou não, a boa educação continua a ser precisa.
Dona Loucura, como continuei secretamente a tratá-la, dissertou sobre a longa viagem que fizera, as pessoas que visitara e os países que percorra, sem nunca me revelar o motivo para estar ali, no meu quarto.
Não resisti, tive de perguntar:
- O que faz agora aqui, Loucura?
- Ora, o que faço aqui?! Tu chamaste-me, meu bem!
Eu?! Eu não chamei ninguém. Estava simplesmente deitada na minha cama, ainda há uns minutos atrás, a dar voltas e voltas entre os lençóis sem conseguir adormecer. Mas isso não tinha nada de novo, nem de louco, que eu soubesse.
Dona Loucura olhou-me com ternura e murmurou:
- Lembras-te? Claro que lembras, querida. Quando tentavas arrumar nessa cabecinha todos os teus pensamentos difusos, consideras-te aquela hipótese…
Continuei a fixa-la atentamente.
- Sim, aquela hipótese de ires lá para fora apanhar com o aguaceiro que ainda agora molha a calçada da tua rua. Quando pensaste que te poderias dissolver com as gotas, correr com elas nos ribeiros que se criam entre os passeios e as estradas e ser coisa nenhuma. Ainda consigo sentir o teu árduo desejo de desaparecer entre o manto de água que caí do céu.
Reflecti sobre o que me dizia. Sim, lembrava-me. Ainda há pouco tivera esse pensamento. Sempre gostei de ouvir a chuva a cair lá fora, contra a minha janela e as minhas telhas. Pressentia o frio com que a noite se revestia e sentia-o na pele, apesar do calor que emanava da minha cama. Enrolada em mim mesma, fazia-me noite e, com a chegada da chuva, arrumava malas e ia com ela. Tudo dentro da minha mente.
- Isso é loucura? Isso é ser como você?
- Deixa o você para o lado. Aqui nem há você, nem tu, nem eu. Há nós.
- Sou loucura? Por querer ser chuva, por sentir frio quando está calor? – interpelei, alarmada.
Mais uma vez, perfurou-me com o seu paciente olhar. Que Loucura tão calma era aquela? Talvez a da razão.
- Como queres ser chuva, frio, rio, nada, se tudo o que és é paixão, quente, entrega, existência? Marcas e marcas-te com ferro a ferver. Nunca serás vazio, minha querida.
Levantou-se, lançou-me um sorriso (esse, sim, puramente louco) e saiu, fechando a porta atrás de si.
A loucura é tramada.
O bater continuou, semelhante a um roçar do vento nas folhas. Devagar, pé ante pé, como nos filmes de terror, dirigi-me à porta.
Quando a abri, exclamei de imediato:
- Dona Loucura!
Ela sorriu-me, a Loucura. Amavelmente, retorquiu:
- Não me chames Dona, minha querida. Somos velhas conhecidas, esses tratamentos já não são necessários.
Olhei-a confusa. Não me lembrava de ter visto muitas vezes a Loucura, muito menos dela me visitar a horas tão tardias.
Convidei-a a sentar-se. Velhas conhecidas ou não, a boa educação continua a ser precisa.
Dona Loucura, como continuei secretamente a tratá-la, dissertou sobre a longa viagem que fizera, as pessoas que visitara e os países que percorra, sem nunca me revelar o motivo para estar ali, no meu quarto.
Não resisti, tive de perguntar:
- O que faz agora aqui, Loucura?
- Ora, o que faço aqui?! Tu chamaste-me, meu bem!
Eu?! Eu não chamei ninguém. Estava simplesmente deitada na minha cama, ainda há uns minutos atrás, a dar voltas e voltas entre os lençóis sem conseguir adormecer. Mas isso não tinha nada de novo, nem de louco, que eu soubesse.
Dona Loucura olhou-me com ternura e murmurou:
- Lembras-te? Claro que lembras, querida. Quando tentavas arrumar nessa cabecinha todos os teus pensamentos difusos, consideras-te aquela hipótese…
Continuei a fixa-la atentamente.
- Sim, aquela hipótese de ires lá para fora apanhar com o aguaceiro que ainda agora molha a calçada da tua rua. Quando pensaste que te poderias dissolver com as gotas, correr com elas nos ribeiros que se criam entre os passeios e as estradas e ser coisa nenhuma. Ainda consigo sentir o teu árduo desejo de desaparecer entre o manto de água que caí do céu.
Reflecti sobre o que me dizia. Sim, lembrava-me. Ainda há pouco tivera esse pensamento. Sempre gostei de ouvir a chuva a cair lá fora, contra a minha janela e as minhas telhas. Pressentia o frio com que a noite se revestia e sentia-o na pele, apesar do calor que emanava da minha cama. Enrolada em mim mesma, fazia-me noite e, com a chegada da chuva, arrumava malas e ia com ela. Tudo dentro da minha mente.
- Isso é loucura? Isso é ser como você?
- Deixa o você para o lado. Aqui nem há você, nem tu, nem eu. Há nós.
- Sou loucura? Por querer ser chuva, por sentir frio quando está calor? – interpelei, alarmada.
Mais uma vez, perfurou-me com o seu paciente olhar. Que Loucura tão calma era aquela? Talvez a da razão.
- Como queres ser chuva, frio, rio, nada, se tudo o que és é paixão, quente, entrega, existência? Marcas e marcas-te com ferro a ferver. Nunca serás vazio, minha querida.
Levantou-se, lançou-me um sorriso (esse, sim, puramente louco) e saiu, fechando a porta atrás de si.
A loucura é tramada.
Sim, a Loucura é tramada. Vamos ser Loucas?
ResponderEliminarGostei mesmo deste texto. Mas mesmo muito.
ResponderEliminar(e dessa fotografia, ainda mais)
"Se eu quisesse enlouquecia."
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