sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Filtração

Dedico um momento a pensar no curioso labirinto que a nossa memória é. (Re)Lembrei hoje como conseguimos filtrar os momentos, deixar para trás pormenores de experiências dolorosas que assaltaram o nosso passado. "Quem me leva os meus fantasmas?", cantava o Marcelo repetidamente esta semana. A tua memória leva um pouco do seu conteúdo, Marci.
(Re)Apercebi-me que filtrei muita coisa terrível, muita coisa que me magoou muito na altura, física e psicologicamente. As dores físicas, então, são fáceis de arrumar a um canto. (Re)Vejo as dificuldades por que passei e espanto-me por concluir que, provavelmente, os meus pais e a Maria se lembram melhor delas do que eu. Apaguei muita coisa.
Por isso é que hoje tremia como varas verdes no bloco operatório, por só ter conservado da minha primeira e única, até ontem, operação simples cheiros e imagens desconectadas. A minha memória dizia que tudo aquilo era novo, apesar de não ser.
Pus-me, assim, a pensar de como a memória é manipulável e desarma as péssimas vivências, mudando-as para más vivências, e nem é preciso passarem muitos anos. Meros meses chegam para ficar tudo um pouco deturpado.
Se calhar é só comigo, que tenho uma memória desgraçada para as mais variadas coisas.



Hoje, Glósóli (Sigur Rós)


1 comentário:

  1. a memória, felizmente, é um processo selectivo. quando pensamos que nos pode prejudicar por essa selectividade, surpreende-nos pelo seu mecanismo único e tão característicamente humano.
    Por isso, podemos acreditar que a manipulação nem sempre é má, antes pelo contrário, pode proteger-nos.

    espero que a cirurgia tenha corrido bem.
    Beijinho* gosto muito de ti :)

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